Lóis Gonçalves
FLÁVIO BOLSONARO REJEITA DESAFIO DE LULA E MANTÉM SIGILOS FECHADOS
Não toque nos meus segredos...FLÁVIO BOLSONARO REJEITA DESAFIO DE LULA E MANTÉM SIGILOSFECHADOS
Em mais um capítulo do fascinante folclorismo políticonacional, o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) decidiudeclinar gentilmente – e com uma pressa quase poética – do convite feito pelopresidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A proposta era simples: uma devassavoluntária e conjunta nos sigilos bancários, fiscais e telefônicos de ambos.Contudo, alegando tratar-se de uma perigosa "armadilha", oparlamentar preferiu manter seus extratos bem guardados no cofre da privacidadeconstitucional.
A faísca que acendeu essa fogueira eleitoral começou nopróprio debate televisivo, quando o presidente Lula foi direto ao ponto. Com otom provocativo característico do embate direto, Lula arrematou que tem 80 anose um apartamento de um milhão e meio de reais, enquanto Flávio ostenta umamansão de seis milhões e outros imóveis, questionando abertamente de onde teriaoriginado tanto dinheiro para patrimônio tão vultoso. Imaginar a cena de doispostulantes ao Palácio do Planalto caminhando até o cartório para expor Pix,faturas e chamadas parecia o ápice de um reality show da transparência.Mas Flávio, com sua prudência ímpar, percebeu que certas transparências revelamalém do desejado. Para que correr o risco de estragar o figurino às vésperas davotação final?
Nos bastidores, o discurso oficial adotado pelosestrategistas é irrefutável: ceder à provocação do adversário não acrescentariaabsolutamente nada ao debate produtivo. Afinal, quem neste país gostaria degastar o precioso tempo de propaganda eleitoral explicando a origem depatrimônios milionários ou prestando contas sobre antigas movimentaçõesfinanceiras quando se pode discutir ideias transcendentais? Classificar a transparênciavoluntária como "armadilha" é, sem dúvida, uma sacada genial demarketing político. Na dúvida entre encarar o desgaste das manchetes e fingirque a proposta nem existia, o senador escolheu a porta de saída mais discreta.
E convenhamos, a hesitação familiar faz todo o sentido.Aceitar um jogo desses abriria um precedente perigosíssimo dentro da dinâmicado clã. O que viria a seguir? O ex-deputado Eduardo Bolsonaro, atualmente emseu confortável "autoexílio" em terras norte-americanas, também seriachamado a expor seus registros digitais? E o patriarca Jair Bolsonaro aceitariacolocar seus extratos no balcão? A prudência, portanto, não é apenas um atoindividual de Flávio, mas um verdadeiro mandamento de preservação familiar. Emtempos de polarização, mexer no baú do sigilo fiscal é como brincar com fósforoperto de um barril de pólvora.
Ao fim e ao cabo, a recusa deixa o palco livre para overdadeiro protagonista deste espetáculo: o eleitor independente. Aqueles quejá têm lado definido dificilmente mudarão de opinião por causa de extratosbancários omitidos ou exibidos. Mas para quem ainda pondera no meio do caminho,o recado é cristalino. A coragem de pedir voto nem sempre caminha lado a ladocom a coragem de prestar contas da mansão. Entre a ousadia de abrir o livroda vida e a sabedoria de trancá-lo a sete chaves, o senador provou que, na retafinal do segundo turno, a privacidade continua sendo o melhor remédio paraevitar indigestões políticas.
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