Carol Nogueira
Toda mulher Tem História
Mulheres, lutas e suas trajetórias, toda semana
Gleisy Cristina, Conselheira Tutelar em MauáEla nasceu onde o sistema esperava silêncio e escolheu lutar
A história de Gleisy Cristina, mulher preta, periférica e hoje conselheira tutelar que transformou as dificuldades em resistência
Existem mulheres que aprendem cedo demais que sobreviver também é uma forma de luta.
Mulheres que crescem ouvindo que não vão chegar longe. Que nasceram no lugar errado, na cor errada, na realidade errada. Mulheres que carregam nas costas o peso de estatísticas que a sociedade insiste em repetir.
Mas algumas delas escolhem contrariar tudo.
E foi exatamente isso que fez Gleisy Cristina.
Ela se define como “uma menina louca”. Louca no sentido de ousar sonhar quando ninguém esperava sonho. Louca no sentido de pensar fora da caixa quando o mundo já tinha decidido onde ela deveria ficar.
“Essa sou eu. Uma menina sonhadora”, resume.
Muito antes da atuação política, das três faculdades ou do trabalho como conselheira tutelar, Gleisy já praticava transformação social sem perceber.

Projeto amigos do campinho no Jd.Oratório em Mauá
Aos 14 anos, organizava festas de Dia das Crianças na comunidade onde morava, no Oratório. O projeto se chamava Amigos do Campinho. Tudo era feito com ajuda dos próprios vizinhos. Cada um contribuía como podia para garantir brinquedos, atividades e um pouco de alegria para as crianças da rua.
Pode parecer simples. Mas ali já existia política.
Porque política também é cuidar do território. É olhar para a própria quebrada e decidir que ela merece mais.
Sua trajetória ganhou outro rumo depois de uma demissão.
Gleisy trabalhava em uma empresa em São Bernardo do Campo quando foi dispensada poucos meses após ser contratada. Enquanto deixava a estação, encontrou uma pequena mesa com um cartaz convidando jovens para participarem do Conselho Municipal da Juventude.
Ela não sabia exatamente o que aquilo significava.
Mas sentiu que precisava ocupar aquele espaço.
Se inscreveu. Foi eleita conselheira municipal da juventude com apenas cinco votos. foi ali que entendeu que sua voz poderia ecoar além da periferia.

Conselho de juventude de Mauá
Mas sua história começa muito antes disso.
Gleisy é filha do cárcere. Cresceu na favela do Oratório, convivendo de perto com a realidade dura da periferia, marcada por ausência, dificuldade financeira e o sentimento constante de precisar provar o próprio valor.
Ainda muito nova, percebeu que precisava ser “duas vezes melhor”.
Tentou bolsas de estudo em escolas particulares. Via a mãe acreditar em seus sonhos mesmo sem ter condições de sustentá-los financeiramente.
Com apenas 12 anos, começou a trabalhar em uma padaria para ajudar dentro de casa e realizar o sonho da irmã mais nova de ter uma festa de aniversário.
“Chegava cinco horas da manhã pra ganhar 300 reais por mês.”
Enquanto muitas meninas da sua idade estavam vivendo a infância, Gleisy já entendia o peso da responsabilidade.
Mas também entendia outra coisa: estudar seria sua forma de romper o destino que esperavam dela.
“Eu entrei na faculdade por revolta”, conta.
“Eu estava cansada de ouvir que eu seria só mais uma menina da favela que engravidaria cedo. Era ódio de vencer.”
A frase é dura. Mas talvez seja exatamente essa dureza que explique sua trajetória.
Hoje, Gleisy possui três faculdades e atua na defesa dos direitos de crianças e adolescentes como conselheira tutelar.
Uma atuação que, segundo ela, é intensa, complexa e muitas vezes exaustiva.
“Defender crianças que não têm voz é emprestar a sua voz para elas.”
Ela explica que muitas vezes o trabalho do conselheiro tutelar é mal compreendido pela sociedade, que desconhece suas funções reais e cobra demandas que não pertencem ao conselho.
Mas, ainda assim, continua.
Porque sabe o que significa crescer sem proteção.
Ao longo da entrevista, Gleisy também fala sobre racismo. Não como teoria, mas como vivência. Como algo que atravessa seu corpo, seu cabelo, sua presença e os espaços que ocupa.
Ela relembra situações em que foi ignorada ou subestimada apenas por ser quem ela é.
Em uma delas, durante uma visita escolar, percebeu que a diretora da unidade direcionava toda a conversa para uma colega branca, ignorando completamente sua presença.
“Ali eu entendi que o racismo está nas pessoas.”
Gleisy permaneceu ocupando espaços.
Permaneceu estudando.
Permaneceu acreditando nos adolescentes que atende diariamente.
Talvez porque ela reconheça neles a menina que um dia também precisou lutar para que enxergassem algo além da periferia.
Quando conversa com jovens, Gleisy faz questão de mostrar que eles não são definidos pelas dificuldades que enfrentam.
“Às vezes aquele adolescente que chamam de bagunceiro só tem uma dor que ninguém olhou.” diz Gleisy
E é exatamente por isso que sua presença importa tanto.
Porque quando uma mulher preta da periferia ocupa espaços de decisão, ela não chega sozinha.
Ela leva junto a possibilidade de futuro para muitos outros jovens que cresceram ouvindo que nunca chegariam lá.
No final da entrevista, Gleisy deixa uma mensagem direta, forte e necessária:
“Não desista. O sistema espera que a gente seja só mais um dentro da cadeia ou dentro do caixão, Mas a gente precisa ocupar espaços de poder e decisão.”
E talvez essa frase resuma tudo.
A história de Gleisy Cristina não é apenas sobre superação.
É sobre resistência.
Sobre romper ciclos.
Sobre contrariar estatísticas e mostrar que o pobre, preto também pode.
E sobre mostrar, todos os dias, que a periferia também produz potência, inteligência, liderança e transformação.
Essa foi a trajetória de Gleisy Cristina.
Caminhada das mulheres
Uma mulher preta, periférica, conselheira tutelar e símbolo de resistência que transformou dor em luta e ocupou espaços que, muitas vezes, disseram não ser feitos para ela.
Porque toda mulher carrega uma história.
E toda história merece ser contada.
Na próxima sexta-feira, a coluna “Toda mulher Tem História” volta com uma nova trajetória, uma nova voz e uma nova realidade que também precisa ser ouvida.
seguimos dando espaço para mulheres que transformam suas vivências em força, luta e inspiração.
Carol Nogueira.




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