Lóis Gonçalves
AS PULGAS ABANDONAM O CACHORRO QUANDO ESTÁ PRESTES A MORRER
Se deixarem a porta aberta ele entraAS PULGAS ABANDONAM O CACHORRO QUANDO ESTÁ PRESTES A MORRER
Diante de revelações sufocantes e do pragmatismo político, o isolamento do clã Bolsonaro desenha o crepúsculo de uma era. Aliados históricos agora recalculam rotas, deixando claro que no xadrez do poder, a lealdade tem prazo de validade.
O ditado popular é implacável: as pulgas abandonam o cachorro quando ele está prestes a morrer. No cenário da política bolsonarista, essa máxima ganha contornos de realidade factual. Historicamente, o patriarca Jair Bolsonaro nunca hesitou em dar as costas aos seus "soldados" mais fiéis quando estes se tornavam fardos políticos — vide o episódio em que minimizou os acampamentos golpistas, chamando os manifestantes de "bando de doidos". Agora, o feitiço parece virar contra o feiticeiro, e a debandada atinge o núcleo familiar.
A pré-campanha de Flávio Bolsonaro cambaleia sob o peso de novas investigações. O movimento dos irmãos diante da crise desenha um mapa de fuga e desespero. Eduardo buscou o que muitos chamam de autoexílio nos EUA. O mais jovem migrou para Santa Catarina em busca de votos fáceis, estratégia agora replicada por Carlos Bolsonaro, que deixou o Rio de Janeiro. Essa pulverização geográfica não é vista com bons olhos por antigos aliados, que hoje criticam publicamente a postura do clã, cansados de blindar uma dinastia em ruínas.
Para azedar o caldo, as finanças da família voltam ao centro do furacão. O montante milionário recebido do empresário Ricardo Vorcaro — supostamente destinado a um documentário sobre o ex-presidente — acendeu novos alertas. Embora a produtora negue o recebimento do dinheiro, o destino final da verba chama a atenção: um fundo no Texas, nos EUA, diretamente ligado ao advogado de Eduardo Bolsonaro. O labirinto financeiro internacional fragiliza ainda mais o discurso de moralidade da extrema-direita.
Somemos a isso a eterna presença de Michelle Bolsonaro, cuja projeção política sempre foi pivô de intensas disputas de ego e rachas internos na família. O alicerce dessa construção política, que já nasceu comprometido, dá sinais claros de fadiga material. As próximas revelações prometem ser a pá de cal em um projeto de poder que usou a fé e o patriotismo alheios como trampolim, mas que desmorona diante do pragmatismo daqueles que preferem o oportunismo à autoflagelação.
É certo que uma parcela radicalizada de eleitores seguirá o líder até as últimas consequências. Contudo, a classe política já busca outros corpos para habitar e garantir a própria sobrevivência. No fim, quem justificava o apoio cego à família sob o pretexto de "lutar contra a corrupção" terá que inventar uma desculpa muito mais criativa para explicar o inexplicável é continuar fazendo o papel de doido tomando detergente e orando para pneus.
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Lóis Gonçalves é artista gráfico, designer visual e ativista afro. Desenvolve pesquisas independentes e escreve crônicas sobre a política nacional sob uma visão estritamente crítica e periférica. Seu trabalho busca promover o conhecimento geral, a desconstrução de narrativas hegemônicas e o letramento racial através da difusão de informações de relevância pública e social.



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