Lóis Gonçalves
CADA ENXADADA UMA MINHOCA O CRÔNICO DECLÍNIO DE UM EX-PRESIDENTE
Não há mais surpresas nesse casoCADA ENXADADA UMA MINHOCA O CRÔNICO DECLÍNIO DE UM EX-PRESIDENTE
A trajetória pós-presidencial de Jair Bolsonaro confunde-se entre o drama político e a comédia pastelão. Diante de sucessivos escândalos que desafiam a gravidade institucional, o líder conservador transformou seu capital político em um enredo de erros grotescos. O que parecia uma retirada estratégica converteu-se em um folclore jurídico sem precedentes na história do país.
O ditado popular "cada enxadada uma minhoca" ilustra com perfeição a rotina de revelações sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro desde a sua derrota eleitoral em 2022. Se a liturgia do cargo exigia uma transição pacífica, o que se viu foi o início de uma crônica tragicômica. A recusa em passar a faixa presidencial e a fuga repentina para os Estados Unidos anteciparam o ápice da crise: os atos de 8 de janeiro. A demora em retornar ao Brasil não foi um exílio voluntário altivo, mas o prenúncio de um embate jurídico inevitável.
No centro da arena, o confronto com o ministro Alexandre de Moraes tomou contornos bizarros. Longe da postura de "leão" das redes sociais, as reações subsequentes flertaram com o deboche e o desespero. A aparente submissão em certos depoimentos alternava-se com piadas sobre candidaturas impossíveis, revelando um isolamento político profundo.
Contudo, o ápice do ridículo institucional desenhou-se no cumprimento de sua prisão domiciliar. O episódio envolvendo a tentativa de fraudar a tornozeleira eletrônica utilizando um ferro de solda — sob a alegação de "ouvir vozes" — transportou o debate político diretamente para as páginas de um realismo fantástico degradante. Não se trata mais de debate ideológico, mas de um caso evidente de perda de dignidade funcional.
Como se não bastasse o histórico de trapalhadas, o mais recente capítulo adiciona contornos graves à sua situação de presidiário. A apreensão de uma arma de fogo, supostamente de sua propriedade, sob a posse de um segurança para a realização de reparos, escancara a completa afronta às restrições judiciais. Um detento, por óbvio, carece do direito ao porte de armas. Esse agravante acelera os trâmites para sua transferência a uma penitenciária de regime comum, sepultando de vez qualquer narrativa de perseguição heroica.
O legado de Bolsonaro, portanto, descola-se da história dos grandes líderes e fixa-se no imaginário popular como uma figura física e comicamente caricata. Ao deixar as páginas da alta política para habitar o folclore policial, o ex-mandatário sela seu destino não como um incompreendido, mas como o protagonista de uma das eras mais bizarras da República.
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