Lóis Gonçalves
PRAZOS EXPIRADOS E A PROMESSA DE PRESTAÇÃO DE CONTAS VOANDO POR AÍ
Fora das quatro linhas na prestação de contasPRAZOS EXPIRADOS E A PROMESSA DE PRESTAÇÃO DE CONTAS VOANDO POR AÍ
Enquanto os olhos do país se voltam para os gramados americanos, os prazos da transparência política evaporam nos bastidores do poder nacional.
O Brasil para. É um fenômeno cultural indiscutível, uma paralisia consentida que transforma noventa minutos de esporte em uma cortina de fumaça ideal para o esquecimento coletivo. Hoje, a seleção brasileira entra em campo em Miami, nos Estados Unidos, para enfrentar a Escócia pela Copa do Mundo de 2026. A euforia toma conta das ruas, as camisas verdes e amarelas resgatam um orgulho festivo e o grito de gol silencia temporariamente as urgências da realidade. No entanto, por trás do espetáculo midiático e do clamor das arquibancadas, o relógio da responsabilidade pública continua correndo, ignorado por aqueles que deveriam dar o exemplo de cumprimento de prazos e de respeito à sociedade.
Há exatos 36 dias, no dia 19 de maio de 2026, o senador Flávio Bolsonaro convocou uma coletiva de imprensa para tratar de um assunto polêmico e arrastado: a transparência financeira do documentário sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Naquela ocasião, diante dos microfones, o parlamentar assumiu o compromisso público de exigir que a produtora e o fundo responsável organizassem todas as contas do projeto, estabelecendo um prazo rígido de 30 dias para que a prestação fosse entregue. O limite estipulado expirou, o silêncio se instalou e a promessa de clareza evaporou. Em vez de explicações detalhadas ou da tão cobrada coletiva de encerramento, o que se vê é o distanciamento físico e moral do parlamentar.
Em vez de honrar a palavra em solo nacional, o senador optou por cruzar as fronteiras para acompanhar de perto a partida da seleção brasileira na Flórida. Essa viagem não é apenas uma escolha de lazer individual, mas um símbolo gritante de como as prioridades políticas são moldadas no país. A ida aos Estados Unidos no exato momento em que o prazo da transparência já estourou em quase uma semana demonstra um desprezo absoluto pela cobrança pública e pelas próprias garantias dadas à imprensa e aos cidadãos. A narrativa do patriotismo de arquibancada contrasta violentamente com a ausência de compromisso com a verdade contábil de um projeto que envolve forte apelo público e questionamentos severos.
O futebol cumpre seu papel de entretenimento, mas não pode funcionar como um anestésico social permanente. A festa em Miami atrai os holofotes, mas não apaga o fato de que as contas do filme continuam nas sombras. Cobrar que representantes eleitos cumpram seus prazos e sustentem suas palavras não é uma questão de perseguição partidária, mas sim o pilar básico de qualquer democracia saudável. O torcedor tem o direito de vibrar com o time, mas o cidadão tem o dever de lembrar que, enquanto a bola rola nos gramados internacionais, a fatura dos compromissos políticos não cumpridos é cobrada diretamente do povo que ficou para trás assistindo à televisão.
#CompromissoComAVerdade



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