Lóis Gonçalves
MANOBRAS REPETIDAS E A ARTE DE DORMIR COM A MESMA ROUPA
Desfile fashion partidárioMANOBRAS REPETIDAS E A ARTE DE DORMIR COM A MESMA ROUPA
A história do marketing político brasileiro acaba deganhar um capítulo surreal no interior paulista. Em Piracicaba, a tentativa devincular a criminalidade a uma legenda partidária ultrapassou os limites do bomsenso institucional e descambou para a encenação rasteira. O episódio resgatafantasmas de pleitos passados, revelando que velhos métodos de manipulaçãocontinuam vivos na mente de quem deveria zelar pela ordem. Diante decontradições gritantes e depoimentos estarrecedores, a sociedade é forçada a testemunhara apequenamento de uma corporação em nome da panfletagem ideológica.
Existe uma ciência ainda não catalogada pela academiamoderna: a física da coincidência estética no crime organizado. Trata-se dofascinante fenômeno verificado recentemente na abordagem policial ocorrida emPiracicaba. Segundo a narrativa que se tentou emplacar com estardalhaço nasredes sociais, três suspeitos de envolvimento com o tráfico e porte ilegal dearmas decidiram, em um momento de pura comunhão fashion e sincronicidadeideológica, combinar exatamente o mesmo figurino para iniciar o dia de atividadesilícitas.
Não se tratava de qualquer vestimenta casual, mas decamisetas rigorosamente idênticas, reluzentes como se tivessem acabado de sairdo ferro de engomar, estampadas com o rosto do presidente Lula e slogans doPartido dos Trabalhadores. É de uma sensibilidade poética sem precedentes:imagine-se a cena dos três indivíduos acordando pela manhã, abrindo oguarda-roupa e combinando, em perfeito alinhamento de estilo, a farda oficialda militância partidária antes de encontrarem a patrulha policial.
O problema dessa apurada narrativa publicitária é que arealidade insiste em desorganizar o figurino. Testemunhas locais e vizinhos quepresenciaram a abordagem foram categóricos ao relatar que ninguém vestia a ditaindumentária no momento em que as viaturas dobraram a esquina. O que se viu, naverdade, foi o ritual de truculência habitual, com relatos gravemente apontadosde agressões físicas, algemas e violência até mesmo contra familiares quetentavam entender o horror que se desenhava no corredor da residência.
A operação de imagem, contudo, já estava montada. Bastoualguns cliques para que a fotografia do trio uniformizado circulasserapidamente pelas redes, impulsionada por figuras políticas interessadas emtransformar a farda em palanque eleitoral. O método não é novo e carrega umincômodo cheiro de mofo. Quem possui memória histórica recorda-se imediatamentedo sequestro do empresário Abílio Diniz, em 1989, quando os acusados foramexpostos à imprensa vestidos com camisetas do PT, em uma manobra grotesca destinadaa impactar o resultado das urnas no primeiro pleito direto após a ditadura.
O retorno dessas práticas revela uma grave degeneração doespírito republicano. Campanhas políticas exigem debate de propostas, confrontode ideias e civilidade, não farsas orquestradas por agentes do Estado. Autilização da estrutura pública e do poder de coerção policial para forjarcenários, fabricar propaganda adversa e manipular a opinião pública fere demorte os princípios mais elementares da administração pública e configurainequívoco crime eleitoral.
As rusgas e o histórico de tensões entre a segurança públicapaulista e a gestão federal não podem servir de salvo-conduto para o arbítrio.O Ministério Público e os órgãos de fiscalização têm o dever imperativo deconduzir uma investigação séria, rigorosa e exemplar. Se a polícia passa aatuar como agência de modelagem e costura ideológica, a democracia perde suasubstância e a justiça vira chacota.
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